De festival de música negra à grito por respeito: Summer of Soul, um filme que além de maravilhoso, é necessário.
A história coloca Woodstock de 1969 como o mais
importante festival de música da cultura pop de todos os tempos, mas houve
outro no mesmo ano, que se não tão incensado e cultuado, é – ao menos – tão importante
e até mais relevante, por todo seu contexto, que o realizado nas terras de Max Yasgur.
Trata-se do Festival Cultural do Harlem realizado entre
29 de junho e 24 de agosto no Mount Morris Park, em Nova Iorque e que contou
com diversos nomes importantes do soul, funk e R&B.
O evento idealizado e produzido pelo cantor Tony Lawrence teve um público total
de mais de 300 mil pessoas e importância fundamental na luta pelos direitos
civis ao representar uma comunidade exposta ao preconceito racial e que durante
aquele período teve diversas de suas lideranças, como o Dr. Martin Luther
King, assassinados.
Foi um grito por respeito que ecoou tendo resultados como mudança de tratamento obtida pela ação da jornalista do New York
Times, Charlayne Hunter-Gault, que teve um texto seu alterado por um editor
branco.
Irada, a jornalista escreveu um memorando de 11 páginas
exigindo que o texto original fosse respeitado e que a expressão usada dali em
diante fosse “black” quando o texto se referisse a pessoas pretas e não mais “negro”
como havia sido colocado à revelia em sua matéria. Era uma questão de
orgulho que o editor Abe Rosenthal, entendeu e acatou.
O evento contou nomes como o jovem Stevie Wonder, Nina
Simone, Sly and the Family Stone, Mahalia Jackson, The Staple Singers, B.B,
King, Gladys Knight and the Pips, The 5th Dimension, Max Roach além de discursos do reverendo Jesse Jackson, que falou sobre a noite em que o
Dr. Martin foi assassinado, tendo sido ele uma das pessoas presentes ao
atentado.
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| Sly Stone |
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| Nina Simone |
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| B.B. King |
Transcorrido sem maiores incidentes, a segurança do evento foi promovida pelos Panteras Negras, já que a policia local se recusou a fazer.
O festival ganhou em 2021 um documentário Summer of Soul (...or when the revolution could not be televised) dirigido por Ahmir Questlove Thompson, após ser apresentado as fitas com imagens dos shows filmadas por Hal Tuchin que havia ficado responsável por registrar imagens do evento.
No filme é possível ver performances dos astros
envolvidos e também de diversos artistas um pouco menos conhecidos, mas que
fizeram performances inflamadas tanto de soul, funk, blues e R&B, quanto de jazz e
música de artistas latinos como Ray Barreto ou o africano Hugh Masekela, entremeadas
com trechos explicativos do contexto social do período como a reação ao recém
evento de chegada à lua que gera comentários hilários sobre a inutilidade do
feito: “-Eles vão à lua, mas nunca tem dinheiro para o Harlem” – diz um entrevistado.
Um artista ventríloquo com sua boneca contesta de forma divertida falando sobre
como ela foi à lua antes dos astronautas, não em um foguete, mas em um carro da
marca Edsel e ao invés de fincar uma bandeira no solo lunar, colocou uma placa:
“À venda: barato.” Já a artista Moms Mabley diz que estava com os caras no
foguete Apollo, mas achou melhor descer em Baltimore.
Ainda há entrevistas recentes com músicos e outras pessoas envolvidas diretamente no evento.
O título do filme faz alusão ao poema The Revolution Will
Not Be Televised, de Gil Scott-Heron, musicado em 1971.
Disponível na Disney+, aba Hulu.
Classificação: imperdível.




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