A gente saca a grandeza de um lançamento quando o texto de apresentação vem com a assinatura de um gigante como o poeta Daniel Perroni Ratto.
E nestes casos, não se muda virgula sequer, aproveitem na integra.
Há artistas que chegam ao streaming como quem invade uma
sala. Outros entram pela porta lateral, observam o ambiente e só depois revelam
suas intenções.
“Foretta” single de estreia de Mabi, saindo pelo selo Sete
Sóis e distribuído pela Tratore, chega metendo o pé na porta, rasga os
alto-falantes, tem cheiro de uísque barato, fumaça de cigarro e o suor dos
encontros artísticos que só a boemia proporciona.
A introdução começa com um lamento de guitarra que parece saído de um ensaio perdido da Big Brother and the Holding Company, em 1968. Mas não estamos em São Francisco; estamos no coração pulsante e caótico de São Paulo.
De repente, a voz entra, invade a sala arranhando as paredes, sangrando em cada nota, num misto de desespero e libertação. É o tipo de interpretação que faz o ouvinte olhar para o próprio copo e se perguntar onde foi que errou na vida. Mabi não está apenas interpretando uma letra; ela está expurgando seus demônios em praça pública, e nós, voyeurs do sofrimento alheio, agradecemos de joelhos por essa honestidade brutal.
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| foto: Millena Rosado |
Em tempos de vozes pasteurizadas pelo auto-tune e arranjos plásticos que parecem saídos de uma linha de montagem industrial, a estreia deste primeiro single de Mabi é um soco no estômago da apatia pop.
A faixa é uma ode ao blues-rock clássico, mas sem soar como um mero pastiche saudosista.
Na cozinha, baixo e a bateria ditam um ritmo cadenciado, pesado, quase hipnótico, que serve como uma base sólida (e pantanosa) para o drama que está por vir.
A entrada dos metais e o colchão do piano, daqueles de armário, com tempo de estrada, dão o tom dramático do soul da gravadora Stax, na Memphis dos anos 50 e 60, transformando a canção em uma missa profana sobre desilusão amorosa.
O solo final da guitarra é um espetáculo à parte. Não há virtuosismo estéril aqui; cada nota chorada na guitarra é um prolongamento da voz da artista.
A música, contudo, reside na performance vocal. O furacão Mabi.
Há uma urgência na interpretação que evoca os grandes momentos de Etta James, claro. Poderíamos citar inúmeras divas, a se buscar referências, como Janis, Aretha, Nina e, mais recentemente, Amy. Tem que ficar nítido aqui, límpido, que não estamos ouvindo uma “nova” esta ou uma “nova” aquela. A surpresa ao ouvir é tamanha, que é natural irmos atrás de referências. É quando nos damos conta: Mabi.
Voltando ao single de estreia, o refrão, onde a cantora atinge o ápice do drive e do rasgo na voz, é de arrepiar. Ela canta sobre a tentativa de superar uma dor ("I tried…") que nos é familiar. E transcende a definição de outridade.
Produzido por Lucas Gonçalves, um dos mais talentosos artistas dessa geração, o disco conta com Lucas na guitarra, bateria e percussão, Tomas Oliveira no baixo e no piano, Sintia Piccin no sax, ambiência de Mabi e Lucas, mixagem e masterização de Renato Medeiros.
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| fotos: Millena Rosado |
"Foretta" é um cartão de visitas ambicioso, que mostra uma artista com total domínio de suas capacidades vocais e estéticas. Em um mercado muitas vezes pasteurizado por algoritmos, ouvir uma estreia que pulsa com tanta organicidade e sangue nas veias é, no mínimo, revigorante.
Fiquemos de olho. Se o cartão de visitas é desse tamanho, a casa inteira promete ser uma fortaleza.
Daniel Perroni Ratto é poeta, jornalista, músico e editor da Editora Algaroba.Pós graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA/USP
Está em todas as plataformas, mas vocês podem ouvir aqui.



Diva!
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