Hyldon, não precisa mais provar nada. Já tem seu lugar no panteão da música brasileira há muito tempo.
Desde que nos anos 1970, ao lado de nomes como Genival Cassiano, Di Melo, Tim Maia e Paulo Diniz, o autor de "As Dores Do Mundo" ajudou a construir a cena da soul music à brasileira injetando na música dos gringos norte americanos elementos de música regional do norte e nordeste brasileiro.
Infelizmente, por uma falha do mercado, essa soul music à brasileira acabou colocada no mesmo balaio de artistas mais "popularescos", o que dificultou um pouco a entrada imediata de seus nomes entre os maiores da nossa música. Lugar este que lhes era por direito e justiça, devido.
Porém, a qualidade das composições, a sofisticação dos arranjos aliado às execuções cheias de talento e balanço diferenciaram seus discos e ouvidos mais atentos renderam a eles status de cult, com uma sólida e fiel base de fãs (anônimos e famosos) para quem continuaram produzindo com o mesmo esmero e cuidado.
E é com esse mesmo cuidado que Hyldon chega à seu 17⁰ álbum: Festa Na Aldeia (2026, DPADiscos) provando, mesmo sem precisar, que o tal lugar entre os "incensados" É dele, por justiça e direito.
O disco tem tudo o que faz do som de Hyldon clássico: melodias inspiradas, grooves e balanços matadores, letras com preocupações sociais e/ou ecológicas e claro, romantismo...
Com 8 faixas misturando novas e antigas composições - todas inéditas - distribuídas em pouco mais de trinta minutos, Hyldon teve a companhia dos amigos talentosos Bernardo Bosísio, Léo Vieira, Bernardo Brandão (guitarras), Cassius Theperson (bt), André Vasconcelos (bx), Eduardo Farias (rhodes), Márcio Pombo (hammond & sinths) e Mafram Maracanã (percussão) como banda base, juntamente dos metais de Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete) e Zé Maria (sax), mas não só.
Outros amigos participaram pontualmente das canções como no caso de "Fã Do Sanduíche" que traz a harmônica de Maurício Einhorn, o violão de nylon de Alex Malheiros e a guitarra do lendário Paulinho Guitarra e lançada como um dos singles.
O outro, "Festa na Aldeia" é um tributo aos povos originários escrito em parceria com o rapper/grafiteiro Nkongo Divwa misturando português e tupi com sons de didgeridoo tocado por Gui Schwab; flautas de bambu de Jorge Continentino e o sax barítono de Rodrigo Revelles.
Outros destaques do álbum são as baladas "Desamor" com um "q" autobiográfico e "O Pierrot, A Lua e o Mar", que encerrou um desentendimento de muitos anos (por conta de futebol, vai vendo!) com outro guitarrista baiano ilustre, Pepeu Gomes, em uma canção relaxante com sons de ondas e pinceladas de rock tingindo o soul.
Diretamente de 1977, "Aconteceu em Geribá" foi composta em Búzios após largar tudo, chateado com uma ordem de sua gravadora para que não se divulgasse mais o seu novo trabalho de então.
A letra, por meio de metáforas, conta um pouco desta história e do sentimento do autor com o assunto. Pedrada cheia de feeling e suingue movida pela percussão e naipe de metais.
Outro ponto alto é "Um Dia Lindo", parceria com Ivan "Mamão" Conti.
A faixa, que tem uma das mais belas letras do disco, encerra o trabalho servindo também como homenagem ao músico do Azimuth, que faleceu pouco tempo após a finalização da composição e pode, sem exagero, figurar entre os grandes clássicos de Hyldon.
A produção, feita toda de forma analógica em fitas de duas polegadas, é assinada pelo próprio Hyldon com mixagem e masterização de Marcio Pombo.
A parte gráfica tem ilustração de Márcio Bertolli com arte final de Lêka Coutinho.
Disponível nas plataformas de streaming e nas mãos de, pelo menos, 40 sortudos que puderam comprar a (já rara) versão em vinil durante as tardes de lançamento do disco no RJ e SP.
Inveja? Eu? Óbvio...


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