Clayton Barros é violonista e um dos fundadores do Cordel do Fogo Encantado, um dos ótimos grupos que resgatavam a música regional pernambucana no início do século XXI e que cairam nas graças do público do sudeste impulsionado pelo interesse - principalmente da MTV que lançou um trabalho ao vivo (cd e dvd) da banda em 2005 - no fenômeno que havia sido o manguebit em meados da década de 1990. Ainda que não tenha quase nada do estilo.
A forte veia poética do trabalho de Lirinha, Clayton e cia., apoiada em um instrumental majoritariamente acústico com violões e muita percussão era um dos diferenciais do Cordel.
E é um dos pontos de referência neste "Primitivo Atemporal" (2026, Selo Estelita), 1⁰ disco solo de Clayton.
Aqui, o violonista traz suas raízes sertanejas (Clayton nasceu em Arcoverde/PE) e a mistura com estilos que passam pelo samba, pelo rap, repente, baião, eletro, funk e até rock. Tudo costurado com a modernidade de samples e bits que explicam, junto com a belíssima capa unindo gibão (primitivo) à motocicleta (moderno) o título do trabalho.
Um bom exemplo é a faixa "Rio de Janeiro/Motoxó", canção feita em parceria com André Zahar que lança o olhar de Clayton sobre sua região e sua cultura e a leva a outros picos, outros pontos. No caso, o RJ natal de Zahar.
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| crédito: Fred Jordão |
Mas o ideal é que se ouça o álbum todo, na íntegra para perceber que no fundo (ou não tão no fundo assim) o trabalho é uma imensa homenagem ao povo do sertão e às próprias influências do autor que vai dos pernambucanos Geraldo Azevedo e Alceu Valença, passa pelo paraibano Zé Ramalho e chega até o baiano Gilberto Gil, que entenderam como poucos o sertão e o traduziram, cada qual ao seu modo, para as pessoas de fora da região. Clayton faz aqui o mesmo trabalho. E faz bem.
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| crédito: Fred Jordão |
Clayton assina a produção do álbum, mas a masterização e mixagem ficaram por conta de Felipe Weinberg nos estúdios Casona, Estelita e Cacimba e traz participações de Bnegão ("Primitivo Atemporal"), Flaira Ferro ("Serena"), Jessica Caitano ("Ancestral") e Fernando Catatau que empresta sua guitarra à faixa "Venha ao Cais".
Para nós, Primitivo Atemporal é um dos lançamentos mais significativos e importantes do ano e mereceria até uma versão física.
Mas não precisa acreditar na gente, dê o clique e tire suas próprias conclusões.



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