Não são apenas ânimos normalmente acirrados em tempos de eleição, esse período histórico em que vivemos traz mais que o embate entre as visões de mundo progressistas e conservadoras, traz o recrudescimento - porque este nunca foi embora - do fascismo.
Alavancado pela ascensão de governos do espectro extremo à direita apadrinhados nos EUA pelo Mussolini dos novos tempos, esse câncer tem se espalhado rápido e colocado em perigo as liberdades individuais e, veja só, tem sido contemporizado e tratado com condescendência por muitos dos que tem condições e deveriam se contrapor e combater.
Um setor que não se cala e utiliza as armas que tem para denunciar esse avanço são as artes. No nosso caso aqui, a música.
E é esse o ponto de partida e o teor do novo trabalho da banda Terminal Guadalupe: Ensaio Sobre A Urgência (2026, 8-Bics).
Se nunca se furtaram em expor suas opiniões e convicções nas músicas, aqui Gabe Salmazo, Luciano Vassão, Allan Yokohama e Dary Jr. escolheram o caminho do afeto para, usando o mote de George Harrison em uma de suas primeiras canções com os Beatles, conduzir à reflexão social obrigando o ouvinte a pensar por si mesmo.
Com 10 faixas distribuídas em urgentes 23 minutos, Ensaio faz suas denúncias longe do tom panfletário que poderia muito bem assumir a direção do trabalho, mas que é, como de costume nos discos da Terminal, embaladas em músicas bem construídas emoldurando as letras cheias de ironia (nem sempre fina) como em "O Bebê de Mussolini", que abre o disco desancando o deputado federal mais mentiroso da história da República, o inútil Nikolas Ferreira, apoiador do filho (da p...) de um certo projeto de ditador que no momento está enjaulado.
Ou a "polêmica" "Love Me Like Gold", que passou por uma tentativa de censura da distribuidora que acabou vetando seu lançamento como single. O motivo? A letra faz referência à um político estadunidense com inclinações (ladeiramento mesmo) ao nazifascismo fazendo, inclusive, saudações ao estilo do partido do bigodinho austríaco que mobilizou a Alemanha e a levou à WWII.
A banda então colocou o disco no YouTube (com a faixa) e o disponibilizou para download no site Scream & Yell.
Uma das preferidas aqui da casa é a explícita "Cristão, Esposo, Pai e Patriota", que acerta com os dois pés no peito da escabrosa história do marido de uma delegada de policia de Belo Horizonte que matou um gari e foi para a academia como se fosse a coisa mais normal do planeta.
O refrão é impagável: "...um bombadão, um bombadão..."
Gravado remotamente e produzido por Dary e Allan, o disco tem som muito agradável, com instrumentos bem definidos e som claro, fruto também do ótimo trabalho de mixagem feito por Matheus Bittencourt no estúdio Casa do Fundo, em Curitiba.
O projeto gráfico é de Maurício Peixoto e reflete fielmente a brutalidade destes tempos.
Na boa? Candidato sério a ser um dos discos do ano.



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